domingo, 9 de julho de 2017

somos sempre todos

A família fala dos seus mortos como quem fala dos seus vivos. Tal como se eles ali estivessem, sentados à mesa, a comer da mesma panela e a beber do mesmo vinho. A magia da memória reside na narrativa das histórias que contamos à mesa, e que guardamos dentro de nós enquanto crescemos e nos lembramos de quem nos contou as vidas da família, que vão morrendo à medida que a terra engole as vozes da sabedoria. Hoje era migas com bacalhau, e Albertina comeu-as de faca e garfo, regadas a um gole de tinto. Israel preferiu a carne, o peixe não puxava a carroça dos homens da família, servia apenas para dar trabalho aos pescadores e às senhoras da praça, e ainda à minha avó, que amassava bolinhos de bacalhau sempre que havia uma sobra pequena, envolvida a ovo, salsa e batata moída no passe-vite. Ela esteve descalça, como sempre. Cortou fatias de pé duro com uma faca do mato, que o pobre crescia além da conta, muito mais grosso do que qualquer cardo ousasse espetar. Ele esteve avinhado, cor de rosa, e não sei se já tinha partilhado que o meu maior sentido é o olfacto. Conheço de cor o cheiro de todas as pessoas da minha história, e o cheiro dele era inconfundível, acre, meio adocicado, um misto de gosto e não gosto que nunca mais na vida me vou esquecer. O meu tio, já velho, esteve também em novo, à mesa connosco. Vestiu-se de calções e chinelos, arrancou os dentes da frente e voltou à escola, no dia em que, chumbado de ano, fugiu de casa, não fosse chover. O aviso era: - se estiver tudo calmo acenem-me com um lenço, no depósito alto da aldeia. Se não aparecer ninguém, desapareço. Apareceu, claro, a minha mãe, que hoje vestiu um vestido branco florido, cortou o cabelo à tigela, agarrou numa fronha de lençol e foi ao depósito da água combinado, acenar para o vazio. Eu estive também pequena, lá no mesmo depósito, no tempo em que os garotos não caiam nos poços nem nas alturas, podiam brincar nos cemitérios e andar em bandos soltos pela estrada, a comer azedas e outras flores que não envenenavam barrigas. Ia sempre lá ver a alvorada, na noite de São João, altura em que Israel me dava uma bola de serradura colorida, atada a um elástico, que saltitava na minha mão até se partir pela força do cansaço. Hoje, posso jurar-vos, estivemos todos ali. Os novos, os velhos, os vivos e os mortos, os de longe e os de perto. É assim que uma verdadeira família permanece no tempo: somos sempre todos, somos sempre todas as idades. Mesmo que a realidade teime em contrariar-nos, e insista na falsa teoria de que se pode  morrer para sempre.

terça-feira, 20 de junho de 2017

falhou tudo


Falhou tudo, como falha há décadas. O resto das considerações e críticas, parecem-me francamente irrelevantes.

sábado, 17 de junho de 2017

cigano

Arminda perdeu-se de amores pelo cigano. Compreendo-a perfeitamente, é muitíssimo mal amada, ninguém a vê, passa pelo mundo demasiado depressa, por entre umas palavras aceleradas e uns gestos ansiosos, que denunciam a necessidade de impacto exteriorizada muito para fora daquele corpo farto. Outro dia perdi uns bons minutos a olhar para ela, deve ter sido em tempos uma linda mulher. Possui uns olhos verdes que não desaparecerão com o tempo, uma cintura comida pelas carnes, uns caracóis mesclados de chocolates, ainda doces, e uma boca carnuda, demasiado bem delineada para o resto do rosto desorientado. As sardas dão-lhe um ar de miúda que muitas de vinte não encontram. Ela não percebeu que eu a mirava daquela forma, implicou-se na razão do seu contacto, barafustava com as mãos e a voz, abanava-se muito enquanto eu acenava com a cabeça como se escutasse tudo aquilo que ela me dizia ( posso lá eu ouvir tudo o que me querem dizer com atenção, sem eu própria enlouquecer). Hoje soube do cigano, e fiquei muito feliz por ela. O cigano é moreno e bonito, com uma barba que faz jus à tradição e não se corta nos primeiros meses de luto, pelo patriarca da família. É pouco falador, ligeiramente envergonhado, de sorriso fácil e de ar sério e confiante. Imaginou-se nos braços dele desde que o conheceu, pois só ali, disse-me por fim, sentiu que poderia desembaraçar o emaranhado do seu cabelo. Só ali poderia descansar os olhos que não mudam de cor, mas que turvam com a velhice, e só ali a sua meninice poderia despertar de novo para os dias da existência, por entre uma cintura de excessos e umas rugas de expressão. Fico mesmo muito feliz por ela, volto a dizer, encontrou o amor num dos melhores locais onde se pode encontrá-lo: o sítio onde a sociedade condena, a inveja mata, e a paixão triunfa.  

domingo, 11 de junho de 2017

medo

Descobri há pouco tempo que os nossos maiores medos podem acontecer. Não aqueles que abraçam os sonhos no meio das noites, em que caímos de nuvens macias, corremos em fuga sem nunca sair do lugar, somos engolidos por ondas gigantes ou por buracos infinitos que nos fazem acordar num salto, para logo no minuto seguinte nos encontrarmos na nossa cama a sossegar o corpo atordoado. São medos daqueles que nos perseguem a raiar a loucura, mas que bem vistas as coisas acontecem no mundo onde vivemos, para nos lembrar que nos dias da existência, pode mesmo mesmo, morar o abandono. Uma criança morreu de fome agarrada à mãe, que faleceu de doença súbita, e ninguém deu por falta dela. Ou melhor, deu, mas não se procurou o suficiente para a encontrar, e ela, agarrada a uma mãe morta, morreu também, sem nunca a largar. Fiquei aflita, engoli em seco, respirei muito fundo e trouxe à minha memória aquele que talvez tenha sido o meu maior medo, desde que fui mãe. O meu maior medo durante muito tempo foi estar sozinha com o meu filho, e ruminar insistentemente no que lhe aconteceria, se algo súbito me ocorresse a mim. Hoje os anos serenos ensinaram-me que eram delírios exagerados de uma ansiedade mórbida, quiçá originada na inexperiência e no stress materno da primeira viagem. Aquela mãe aprendeu de outra forma, bem mais violenta, outra coisa completamente diferente. Por esta hora, alguém já lhe deve ter dito que os medos maiores podem não ser delirantes, que a vida é um imprevisto duvidoso, e que não há medo de mãe que seja maior do que a realidade. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

silêncio

Escorreguei numa piscina e espalhei-me ao comprido no chão do hospital. A culpa foi da vaidade, escovava o cabelo com muito jeito, entre uma água no chão, um casaco no braço, um batom na mão, o objectivo era mesmo estar linda quando saísse para a rua. Não consigo, já não sou capaz. Já não há rimel que me erga as pestanas ao infinito, penteado que se segure firme, blush que me torne as maças do rosto salientes o suficiente, e corrector de olheiras que me aligeire os papos dos olhos, construídos uma noite de cada vez, devidamente adensados pelos dias, esculpidos pelo Inverno e corados pelo verão, que acaba sempre por me ir passando sorrateiro pelas frestas das janelas. Olhei em volta e percebi que estava sozinha. Não havia vivalma que por ali estivesse, certamente alguém tinha tomado banho no lavatório e tinha ido à sua vida, quem sabe era uma armadilha devidamente elaborada por algum ser descontente. Sendo assim levantei-me depressa, sacudi as vestes do corpo, sequei as pernas e os pés e fui andando pelos corredores, direita, como se nada me tivesse acontecido, muito embora as dores se instalassem devagarinho como uma praga, no meu pé esquerdo. Foi há quinze dias, e o dito lembra-me a toda  hora que a vaidade custa caro. De cada vez que dou um passo, tremelico. Se ouso colocar um salto, grito. Se os ato num atilho elegante e fino, abano para todos os lados, e de momento, a única coisa que me permite com a placidez do seu orgulho é um ténis jeitosinho, com umas risquinhas douradas, discreto, invisível, sossegado. A senhora amorosa da fisioterapia já me informou que vou ter uns meses penosos, mas pela parte dela, estamos quase despachadas. Fiquei muito feliz ao ouvir isso, nem imaginam quanto. Ela não sabe, mas eu tolero bem a dor residual. Consigo abandonar a vaidade, teimosa e já inglória, consigo encontrar no conforto de um calçado baixo, o suficiente para me sentir segura e satisfeita. Neste preciso momento, só não suporto mais os desabafos das senhoras que bondosamente me afagam os pés. São monótonos, monocórdicos, pouco interessantes, centram-se nas receitas da cozinha, nos arrufos com o marido, nas dificuldades de gerir os velhos da família. Há locais, como por exemplo estes, nos quais deveria ser proibido conversar, sob pena de morarmos num mundo profundamente desequilibrado: ela precisa de falar, na exacta medida em que eu preciso de silêncio. O silêncio não é de ouro, o silêncio é de vidro, parte-se a cada instante, morre em quase todos os locais que eu conheço, debaixo de umas palmas ensurdecedoras. Com todos de pé, altos e elegantes, a gozar o prato do meu pé torcido, dorido e inchado. Barulhento que só visto.  

Seguidores